4 de abril de 2010

Antidepressivo nº 1

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Deixar o dia pra depois da aula.
Deixar o doce pra depois do arroz.
Deixar a sesta pra depois da louça.
Deixar o samba pra depois do labor.

Pausa para o pôr-do-sol.

Deixar a noite pra depois do dia.
Levar o sexo para o fim da noite.
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31 de março de 2010

Ser deus

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Eu queria escrever umas coisas como você.
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30 de março de 2010

Minhas coxas me respondem você

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As coxas que ficaram na pele das minhas!
Ar de fruta cica no meu
dormente peito explode pra dentro
suga meus ombros.

Mar de morros
de outros sopros.
(Viajo longe
e viajo nunca.)
Em que perdi meu olhar,
perdi meu corpo,
perdi os braços,
perdi as pernas,
perdi as pernas,
perdi no pênis.

Tens razão, o amor é sexualmente transmissível.
Nem que seja teu amor em outros.
se transmuta em “por ti”.

(Veneno que sobe rápido e rasga a coxa em tensas e espasmantes.)

Um vazio pleno, fugaz e cheio, transbordante escorre você de mim.
E teus pelos e não-pelos massageiam meu carinho na tua cova de dormir,
de eu dormir em você,
de dormir um pra sempre fundo (até quando?) em você.

A, delícia! Tua língua me ouvindo o dentro.
Teu relevo me aquecendo um sentir forte de olfato.
E é você esse som murmurante, baixinho e explícito, que me infla
a ser Eurói.

Cadência do teu rio rolando pelas minhas pedras,
ao fundo fundo
mar onde me perco
afogo.

A Insolação.
Arrombou silenciosa minha pele.
“Guarda-te o amor.
Teme essa felicidade.”

Minha ferida ferida por ti.
Minha felina aberta
me arrisca a pele cardial.
Na cama
uma vez mais.
A levantar a madrugada de mim,
nua.
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Minhas

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Minhas antes paixões filhas de putas,
como as xingo!
Mulheres de quem respirei
como as leveduras se nutrem de glicose!
pelas quais fui furado,
vazando todo meu éter espesso pelo chão.

Gatunas de minha força e ação:
fletida minha pena a uma flacidez inútil.

Meses
e não escrevo pra sentir pra escrever
novo caminho.

Feitoras de minha melancolia:
fugidas com minhas mãos em seus corpos.


Minhas ante paixões, filhas da puta,
ainda pra sempre as sangrarei.
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29 de dezembro de 2009

Sem Título 3

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......Teve um dia que eu morri. Chovia em São Paulo. Ainda primavera de São Paulo. Com flores nas barracas de porta de cemitério. Chovia. Eu me a tivera enamorado, namorado, amorado, morado e orado. Por sua morte. A mim, tão clara. A ela, tão escuro. As lâmpadas de vapor de sódio me iluminavam a chuva. As dicroicas a iluminavam o apartamento duplex recluso.
......Tinha eu me amado nela.
......Nela morri. Ela. Flores, curvas, essências. Re_velava a vida. Eu. Re_velava o químico, o duro, o seco. Não sei, se ela, disso, aprendeu, talvez. Eu: teve um dia que eu vivi.
......No funeral de sua morte, de meu luto, a vi. Entre os vivos, os pouco vivos, os há pouco não vivos, os mortos. Eu, cá. Ela, lá. Viva! A mim, tão clara. Ela, cá. Eu, lá. A ela, transparente.

......Explico: Depois da morte da defunta apareceu-me uma mulher que eu dizia curar os ainda vivos. Ali, entre flores de barracas de porta de cemitério, o IML e os vivos-mortos esperando a barca do inferno. Chovia.

......Quando o sódio se fez mercúrio, ela veio, estilizada, etilizada. Ela. Não via transparente que em seu torno se moldava o corpo na cama. A minha cama. O meu corpo. O seu corpo. O seu cheiro. A minha almofada. Linda, toda desejo próprio.
......Ela. Toda conquista. Dança, vinho, música e azeitonas. A Grécia. O Tirreno. E a minha almofada. A mim, a olfação. A ela, o epitélio olfativo. Ela. Desvelava o vivo. Eu. Desvelava a morte.
......Químico. Duro. Seco.
......A ferida eu abria com as minhas unhas na minha pele. Meu rosto eu abria com as minhas unhas na minha barba. O espelho. O vidro. A janela. Cortavam-me em eu mesmo. Portal. Do Outro. Lado. A morte. Corpo curvo. Frente. Lado. Torto. Rosto liso, chupado, anguloso. Os olhos escuros, no fundo, afundados. Olhei-me Frida. Sem cor. Sem Sexo.

......Explico: Quando escrevendo não consigo tirar as repetidas vezes que olho pro meu objeto de escritura. Como quando Terpsícore, toda dança-nua-conquista, deixou-me cheiro. A minha cama. A minha almofada. O seu cheiro. E o corpo-imagem que ainda jaz.

......E teve um dia que ela veio. De susto. De repente. Eu, ela. Ela. Eu. Tchau!
......Toda linda. Toda desejo. Desejo de quem. Desejo de si? Não. Soube eu. Aquela hora. E os urubus que me rondavam. Descobriu. Os urubus. Rondavam ela. Ela, a cura, encarniçada. As horas antes, dias antes, meses antes que me desdiziam racional, que me rediziam animal forte, potente. Mas ainda o crânio inteiro e superior. Ela a força. Eu o fraco. Mas então o crânio interior e inferior. Ela domínio. Eu terra salgada pelos patrícios. Eu terra lavrada pelos cegos.

......Explico: Desta, a outra, passagem frívola, agora digo não lembremos dela. Da antiga. Agora. Posso dizer. Te amo. Pra sempre. Mesmo ainda ferida, porque pra sempre ferida. De tudo aquilo, levo tudo, o que sobrou. Pra agora. Pra depois. A ferida protege.

......Os corpos ditos universais perambulando pela praça do tempo. Sem filamentos e sem descargas. O calor das fusões do corporativo, me ferve a nuca a cada passo rumo a sombra. Em todos os passos. Rumo a sombra. Entre eles andava o meu corpo. Pela praça do tempo. A minha terra era para se fazer molhada, a minha pele era para se fazer molhada. Molhada de outras peles, mais pra cima do rio, onde as águas são mais comuns e a turbulência só reina abaixo da aparência. Onde a turbulência gelada impera. Eu estava. Eu espera. Eu escuro.
......Quando pensei a luz, quando segurei a luz, quando domei a luz, quando movi a luz, quando signei a luz, fiz a luz: o volume, o relevo, o contraste, o critério, o vazio e o presente. A mutação. O mutante. O duplo. Eu. Sagittarius. E na Grécia eu me fiz Quíron, senhor da cura. Eu. Senhor ferido.

......Teve um dia que eu vivi. Teve um dia que eu morri.
......Lá. Eu. Lá. Ela. Lá entre as árvores do cemitério de vivos-mortos. Dois quase vivos. Dois de pele dura e fria. Dois demais. Dois de carne viva. Dois de carne ambígua. Lisa e estriada. Eu carne trêmula. Ela carne aberta. Eu carne abrasada. A marca que me marcou o braço, extensão do peito. O peito energia do braço que me marcou a marcar nela a minha porta. A fissura nela. A parede ruindo. Eu a cura ferida. Ela a ferida aberta. Eu a ferida em busca. Ela minha ferida nova. Na pele das flores das barracas de porta de cemitério.
......Entre os nunca vivos e as sem luzes acesas, dois vivos morrendo. Ao gosto da vida das bactérias. Anaeróbicas. Ações de morrer. Ela morrendo Eu morrendo Ela. Sim! Arranha. Sempre arranhadura. Na pele, dos corpos, de mortos.
......E ela ela. E eu eu.

......Teve um dia que eu vi a morte andando em direção aos mortos-vivos.
......A minha morte, mal vivo que me finca na pele até a carne. A morte, bonança, me vem?
......Hoje, vivo a morte.
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10 de dezembro de 2009

Todo Fragmentado

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Sei que a tenho, logo não posso/consigo me desfazer:
Liberdade (eis o problema).

Pra escolher
entre
ética com falta de dinheiro
e
conforto sem real-ação pessoal*.



Não é ver o Flamengo em alta definição.
É fazer a Minha Boa Jogada (MBJ) [que não sei definir] pra um mundo melhor [ainda indefinido].

E não sou todo romântico achando que depois da minha geração alcançaremos a Primavera.



A minha boemia já não morre de amores.
A minha não-gera-ação em bolhas de látex.

Não se explode o peito.
Pseudo-intelectuais rígidos e osteoporosos.



O descrédito.
A (não-)Ciência moderna.
A desesperança.
A evolução tecnicista.
O desespero.
Mais fácil segui-la: o crédito.



Mas o Flamengo foi campeão.
Mas eu não comemorei.
Mas eu assumi ser artista.
Mas eu não comemorei.
Mas eu comprei um notebook.
Mas eu não comemorei.
Mas eu estou apaixonado.
Mas eu não comemorei.



E juntar esses cacos?
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* Digo “real-ação” como sinônimo cognitivo de uma ação verdadeira, mas como uma unidade só, não numa simples relação adjetivo-substantivo; por isso o uso de hífen, não de espaço. O uso de hífen, no entanto, não quer  propor um significado de ação verdadeira na palavra “relação”, como é frequente em muitos textos.
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9 de novembro de 2009

Eu Sinto (sua) Falta Outro

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Num quarto que não é meu,
roupas que não são minhas.
Quarto apertado,
roupas largas.

Eu
por ruas de gente,
olho nos olhos e não aguento,
ando direto e não aguento,
chego perto e não aguento.
Sinto sua falta.

Sinto falta de colo, corpo, cama, quarto, casa.

No espelho eu não aguento,
no sono eu não aguento,
no coçar-me eu não aguento.

Sinto falta de você, outro.
Sinto falta de você, eu.

E como? agora de ombros e braços flácidos,
joelhos esticados,
pescoço esticado e duro,
olhos no escuro?

Sinto a falta de você, eu.

Agora não busco,
não ando,
não vejo.

Há muito perdi a graça.
E por nada,
nem um pedaço de celulose,
nem um montinho de sílica,
quero.
Não quero!

Não quero graça,
não vejo graça,
não tento graça,
não faço graça.

Há muito perdi.
O que fiz?

Sinto.
Falta.

A casa morre,
o quarto morre,
a cama morre,
o corpo morre,
o colo fecha.

Não tenho graça.

Eu
Outro
Sinto
Falta
(sua)
.

4 de novembro de 2009

O corpo corpo vivo

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Depois do coração bater
e encorpar cavidades
repetidamente
a língua subir e descer
a barriga
o peito
a boca chupar e cuspir
o ar
se faz pesado
úmido
fechado
quente
significante
cheirando ao cheiro cheiro que o
ventre conhece
os caldos e carnes quentes
que entraram
e pelo
reto saíram.

A mucosa
embebida
abrindo e
fechando
rola por ela
a existência do outro
do outro
dentro
fora
escorrendo
pelo
pelo
outro
misturado com
outro.

O
fica
o cheiro cheiro
pelo
pelo
corpo todo.



Depois do coração
bater
e encher a veias
do fluido sanguíneo
repetidamente
a língua estalar e
travar
a barriga a boca
chupar e cuspir o ar,
o ar se faz pesado
úmido
fechado
quente
cheirando ao cheiro cheiro que a barriga
apodrece
os caldos e as carnes quentes que entraram
e
pelo reto
saíram.

As mucosas
embebidas
abrindo e
abrindo
enchendo
rasgando
a existência dos outros
menores
maiores
que o outro
fora
dos outros
escorrendo
tomando o
corpo cheirado
cheiroso
pelas
cavidades e pelos
barriga boca língua.

O fica
o corpo
corpo
seco
frio
cheiro cheiro
quente.
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2 de novembro de 2009

D.C.

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Me
diz culpa.

Te amo.
Você todamor meu.
Você,
não.

Você ismos.
Eu no alto.

Digo, culpa.
Você todamor.

Eu teu nome.
Eu qualquer nome.
Eu sem nome.
Eu sem nomes na boca.

Eu no auto.
Eu reto.

Desculpa.
Eu me amo você.
Você,
não.

Des-culpa.
Você você.
Eu Eu.

um beijo



De culpa
fica um espaço entre eu
você.

Apertado espaço você entre eu.

Você choro.
Você-(sempre-nunca) choro.
Eu me choro você.

Agora.
eu!
?
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Vem. Fica.

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Vida vem, vai.



Enquanto isso,
dorme do meu lado uma loira Terpsícore.

Um perfume sem cheiro no ar,
um hálito
que carrega meu peito
pra frente e pra cima
e pra trás e pra baixo.

Eu acordado
Uma garrafa na mesa
E a Paz, rolando de sonhos, dançando provocante sobre a minha cama.

Cada respiro um ar de seus seios me infla o tórax.
Cada instante paro e respiro seu corpo.
Cada eu acordado esperando vir seus olhos claros.

Dorme do meu lado uma loira Terpsícore.
Por quanto tempo dormirá.
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